sábado, maio 16, 2015

PontOs E pontoS

Existe algo de genial na diferença.. coisas que alguns tolos não percebem, que alguns idiotas não vêem.. algo que muitos não se permitem entender e ou respeitar..

Por exemplo, o Matheus nasceu cego e é um menino super divertido e popular no colégio em que estuda. Na aula de natação ele conheceu um garoto chamado Rael, que tem uns dezessete anos e gosta de garotos. A sua orientação sexual não é problema para sua família ou amigos que o respeitam como ele é. Algo que também não foi problema para o Matheus. Ele costuma dizer, que não vê problema algum nas diferenças, e que não sabe quais são as diferenças e as semelhanças que possam atrair ou repelir uma pessoa..diz que só percebe as semelhanças as pessoas que fazem e emanam o bem, e o fazem sentir-se bem.’ Sempre que o Matheus fala isso me emociono!

O melhor amigo da Rana, vizinha do Matheus, é ruivo e gosta de funk. Ela prefere jazz e blues, são estilos de musica que sempre ouviu desde muito pequena por influencia dos pais.. Já o ‘ruivo’, não posso falar muito sobre ele, parece ser um cara bacana apesar do gosto musical..-brincadeira, nada contra!-,  fato é que eles sempre se deram muito bem. Conheceram-se no último colegial, aproximaram-se mais durante as aulas de arte do Prof. San’tiago, um espanhol que morava em Israel antes de chegar à cidade de São Paulo conhecer uma carioca e se ‘enamorar’ perdidamente.
Matheus tem olhos cor de mel como os da mãe, ele negro assim como o seu pai que morreu quando ele completara 3 anos de idade. D. Lucila, sua mãe, é uma excelente costureira... Pele branca, olhar cansado. Nunca deixou que nada faltasse ao seu único filho, ela sonhava em conhecer o mundo quando criança, mas, nunca saiu da cidade que nasceu...

Diferenças...

Antes de ontem, conheci o Lucas, um garoto encantador, ele tem síndrome de down e trabalha num supermercado aqui perto de casa, fiquei muito contente. Aqueles olhos brilhantes, atentos..fico imaginando a alegria dele, saindo de casa todos os dias para exercer aquela função. Fico pensando nele sentindo-se igual... Sentindo-se como de fato deve ser.
Imagino o misto de plenitude e aflição... De preocupação e alegria dos seus pais. Os obstáculos existem para serem vencidos, me parece que aquele garoto, tem feito isso muito bem.

As pessoas são diferentes, cada um com uma experiência, com uma vivência. Assisti a uma reportagem que falava sobre ‘troca de sexo’. A personagem em questão' dizia que sofria demais, que vivia presa em um corpo que não lhe pertencia, que era obrigada a viver um mundo que não era o seu..
Conheço uma garota, que passou por esse processo também, antes era Rafael, agora é Renata. Ela escolheu esse nome por conta do seu significado, algo como ‘renascida’, se não me engano. Novo nome, novo sexo, nova vida.. Ela se diz feliz, trabalha, paga as suas contas, tem alguns poucos amigos...não se importa com o que pensam, com o que dizem.. E infelizmente as pessoas falam muito, dedicam-se demais a vida alheia!! A D. Aurora é bem assim, ela ainda mora na mesma rua que a Renata morava na infância, criticava a criança por seu jeito, seus trejeitos, era quem disseminava, feito erva daninha maledicências sobre todos no bairro.. A mais ou menos dois anos ela começou a sentir umas dores na garganta que não passavam de forma alguma, o médico de cara desconfiou logo do que se tratava, pediu para que ela fizesse alguns exames, e constatou um tumor maligno na laringe, certamente por causa do cigarro...ela faz radio e quimioterapia, há algum tempo.. hoje mal consegue falar. Quando podia, falava bastante sobre os outros, mas, nunca explicou aos curiosos, o porquê daquelas eventuais manchas rochas em seu rosto, que curiosamente surgiam sempre que o seu marido, que era uns dez anos mais novo que ela, chegava bêbado em casa. Nunca nem passou por sua cabeça 'comentar' sobre sua própria vida, sobre seu relacionamento conjugal, não fez antes e aparentemente, não fará mais.

As diferenças... A forma que as pessoas enxergam o mundo e as pessoas ao seu redor
As diferenças... Como nós nos enxergamos e nos percebemos..

Quando eu era criança, achava que o céu era igualzinho pra todo mundo, já não penso mais assim... As pessoas enxergam o céu e as pessoas de forma completamente diferente, nem certo, nem errado..apenas diferente. Tem a ver com as suas conveniências, desejos e ambições..é algo muito pessoal, é bem particular.
O diferente às vezes machuca! Pessoas às vezes são machucadas por serem diferentes!
Tem a ver com a alma meu filho! Vovó quem me disse em uma de nossas últimas conversas. Acho que nunca ouve ninguém nesse mundo como a vovó. Sábia, leal, amiga, cordial, extremamente inteligente, buscava sempre ver o lado positivo das coisas, por mais difícil que fosse a situação.. Vovó nunca foi à escola, era analfabeta. Por causa dela, eu sempre soube que a inteligência não estava ligada ao estudo, a formação. Vó Flor’’, era um exemplo claro disso.
O que ha de bom em mim hoje devo exclusivamente a ela, não poderia ter sido criado por alguém melhor após a morte dos meus pais.

A magia do diferente é realmente genial...

O Leonel nunca pôde brincar com/como as outras crianças, desde novinho foi diagnosticado com uma doença popularmente chamada de doença dos Ossos de Cristal ou Ossos de Vidro devido à fragilidade dos ossos de todo o corpo.
No início, sentia pena dele, observando o mundo através daquela janela... Certa vez minha avó disse para que eu não sentisse pena dele, falou para eu tentar ser seu amigo. Ela falou que ser amigo dele seria de maior utilidade tanto pra ele quanto pra mim. E foi exatamente o que eu fiz. Hoje tenho vinte e seis anos o Léo já não está entre nós, faleceu há uns três anos...  Mas, ele está presente em minha vida... Era um dos caras mais inteligentes, curiosos, inquieto e parceiro desse do mundo. Minha avó era mesmo sábia. Com o Léo escobri a delícia da leitura, passei a gostar de matemática-ele era mesmo um gênio-, comecei a sorrir com vontade, e com mais verdade. Ele era feliz, e a sua felicidade contagiava.

Existe muita diferença nas diferenças, e muitas semelhanças nas diferenças.
No que será que somos semelhantes?
Onde estará de fato nossas diferenças?

Conheço e me relaciono muito bem com negros, brancos, gordos, estrangeiros, cadeirantes, gays, velhos, verdes, azul e lilás.
Não perco tempo buscando diferenças, gosto de semelhanças.
Acredito que temos muuito mais semelhanças que diferenças.

A coragem da Renata me inspira.
A alegria do Matheus me emociona.
A amizade da Rana com o ‘Ruivo’, me cativa.
O carinho e o respeito da família e amigos do Rael, são exemplos a serem seguidos.
A sabedoria da minha Vó Flor.. Minha mãe Flor, minha Flor. Falar sobre ela me emociona muito..

No dia em que o Léo morreu. D. Marina, me perguntou porque eu me aproximei do seu filho, ela disse que sempre adorou nossa amizade, que me tinha como um filho, mas, que essa duvida sempre permaneceu em sua cabeça. Disse que eu me aproximei ao contrario das outras crianças que se afastavam dele por conta da sua diferença e limitações. Falou que eu fiz o seu filho sorrir em dias dolorosos, perceber os lados positivos da vida.. Que minha amizade transformou a vida do seu garoto..

Eu... Por um momento não soube o que responder.

A abracei forte, lembrei da minha avó, e respondi ali no calor do abraço, que me aproximei do Leonel por causa do que ele poderia me dar. E me deu!! Possibilidades de conhecer alguém sublime, realmente fraterno, sem impureza.
Eu disse que não poderia deixar de conviver com um amigo, um irmão, um pai, as vezes filho, parceiro por algo que os olhos tem o poder de estragar. O meu relacionamento com o Léo estava pautado na verdade cega.
Éramos como éramos, por conta das nossas semelhanças.







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