PontOs E pontoS
Existe
algo de genial na diferença.. coisas que alguns tolos não percebem, que alguns
idiotas não vêem.. algo que muitos não se permitem entender e ou respeitar..
Por
exemplo, o Matheus nasceu cego e é um menino super divertido e popular no
colégio em que estuda. Na aula de natação ele conheceu um garoto chamado Rael,
que tem uns dezessete anos e gosta de garotos. A sua orientação sexual não é
problema para sua família ou amigos que o respeitam como ele é. Algo que também
não foi problema para o Matheus. Ele costuma dizer, que não vê problema
algum nas diferenças, e que não sabe quais são as diferenças e as semelhanças
que possam atrair ou repelir uma pessoa..diz que só percebe as semelhanças as
pessoas que fazem e emanam o bem, e o fazem sentir-se bem.’ Sempre que o
Matheus fala isso me emociono!
O melhor
amigo da Rana, vizinha do Matheus, é ruivo e gosta de funk. Ela prefere jazz e
blues, são estilos de musica que sempre ouviu desde muito pequena por
influencia dos pais.. Já o ‘ruivo’, não posso falar muito sobre ele, parece ser
um cara bacana apesar do gosto musical..-brincadeira, nada contra!-, fato
é que eles sempre se deram muito bem. Conheceram-se no último colegial,
aproximaram-se mais durante as aulas de arte do Prof. San’tiago, um espanhol
que morava em Israel antes de chegar à cidade de São Paulo conhecer uma carioca
e se ‘enamorar’ perdidamente.
Matheus
tem olhos cor de mel como os da mãe, ele negro assim como o seu pai que morreu
quando ele completara 3 anos de idade. D. Lucila, sua mãe, é uma excelente
costureira... Pele branca, olhar cansado. Nunca deixou que nada faltasse ao seu
único filho, ela sonhava em conhecer o mundo quando criança, mas, nunca saiu da
cidade que nasceu...
Diferenças...
Antes de
ontem, conheci o Lucas, um garoto encantador, ele tem síndrome de down e
trabalha num supermercado aqui perto de casa, fiquei muito contente. Aqueles
olhos brilhantes, atentos..fico imaginando a alegria dele, saindo de casa todos
os dias para exercer aquela função. Fico pensando nele sentindo-se igual...
Sentindo-se como de fato deve ser.
Imagino o
misto de plenitude e aflição... De preocupação e alegria dos seus pais. Os
obstáculos existem para serem vencidos, me parece que aquele garoto, tem feito
isso muito bem.
As
pessoas são diferentes, cada um com uma experiência, com uma vivência. Assisti
a uma reportagem que falava sobre ‘troca de sexo’. A personagem em questão'
dizia que sofria demais, que vivia presa em um corpo que não lhe pertencia, que
era obrigada a viver um mundo que não era o seu..
Conheço
uma garota, que passou por esse processo também, antes era Rafael, agora é
Renata. Ela escolheu esse nome por conta do seu significado, algo como
‘renascida’, se não me engano. Novo nome, novo sexo, nova vida.. Ela se diz
feliz, trabalha, paga as suas contas, tem alguns poucos amigos...não se importa
com o que pensam, com o que dizem.. E infelizmente as pessoas falam muito,
dedicam-se demais a vida alheia!! A D. Aurora é bem assim, ela ainda mora na
mesma rua que a Renata morava na infância, criticava a criança por seu jeito,
seus trejeitos, era quem disseminava, feito erva daninha maledicências sobre
todos no bairro.. A mais ou menos dois anos ela começou a sentir umas dores na
garganta que não passavam de forma alguma, o médico de cara desconfiou logo do
que se tratava, pediu para que ela fizesse alguns exames, e constatou um tumor
maligno na laringe, certamente por causa do cigarro...ela faz radio e
quimioterapia, há algum tempo.. hoje mal consegue falar. Quando podia, falava
bastante sobre os outros, mas, nunca explicou aos curiosos, o porquê daquelas
eventuais manchas rochas em seu rosto, que curiosamente surgiam sempre que o
seu marido, que era uns dez anos mais novo que ela, chegava bêbado em casa.
Nunca nem passou por sua cabeça 'comentar' sobre sua própria vida, sobre seu
relacionamento conjugal, não fez antes e aparentemente, não fará mais.
As
diferenças... A forma que as pessoas enxergam o mundo e as pessoas ao seu redor
As
diferenças... Como nós nos enxergamos e nos percebemos..
Quando eu
era criança, achava que o céu era igualzinho pra todo mundo, já não penso mais
assim... As pessoas enxergam o céu e as pessoas de forma completamente
diferente, nem certo, nem errado..apenas diferente. Tem a ver com as suas
conveniências, desejos e ambições..é algo muito pessoal, é bem particular.
O
diferente às vezes machuca! Pessoas às vezes são machucadas por serem
diferentes!
Tem a ver
com a alma meu filho! Vovó quem me disse em uma de nossas últimas conversas.
Acho que nunca ouve ninguém nesse mundo como a vovó. Sábia, leal, amiga, cordial,
extremamente inteligente, buscava sempre ver o lado positivo das coisas, por
mais difícil que fosse a situação.. Vovó nunca foi à escola, era analfabeta.
Por causa dela, eu sempre soube que a inteligência não estava ligada ao estudo,
a formação. Vó Flor’’, era um exemplo claro disso.
O que ha
de bom em mim hoje devo exclusivamente a ela, não poderia ter sido criado por
alguém melhor após a morte dos meus pais.
A magia
do diferente é realmente genial...
O Leonel
nunca pôde brincar com/como as outras crianças, desde novinho foi diagnosticado
com uma doença popularmente chamada de doença dos Ossos de Cristal ou
Ossos de Vidro devido à fragilidade dos ossos de todo o corpo.
No
início, sentia pena dele, observando o mundo através daquela janela... Certa vez
minha avó disse para que eu não sentisse pena dele, falou para eu tentar ser
seu amigo. Ela falou que ser amigo dele seria de maior utilidade tanto pra ele
quanto pra mim. E foi exatamente o que eu fiz. Hoje tenho vinte e seis anos o
Léo já não está entre nós, faleceu há uns três anos... Mas, ele está
presente em minha vida... Era um dos caras mais inteligentes, curiosos,
inquieto e parceiro desse do mundo. Minha avó era mesmo sábia. Com o Léo
escobri a delícia da leitura, passei a gostar de matemática-ele era mesmo um
gênio-, comecei a sorrir com vontade, e com mais verdade. Ele era feliz, e a
sua felicidade contagiava.
Existe
muita diferença nas diferenças, e muitas semelhanças nas diferenças.
No que
será que somos semelhantes?
Onde
estará de fato nossas diferenças?
Conheço e
me relaciono muito bem com negros, brancos, gordos, estrangeiros, cadeirantes,
gays, velhos, verdes, azul e lilás.
Não perco
tempo buscando diferenças, gosto de semelhanças.
Acredito
que temos muuito mais semelhanças que diferenças.
A coragem
da Renata me inspira.
A alegria
do Matheus me emociona.
A amizade
da Rana com o ‘Ruivo’, me cativa.
O carinho
e o respeito da família e amigos do Rael, são exemplos a serem seguidos.
A
sabedoria da minha Vó Flor.. Minha mãe Flor, minha Flor. Falar sobre ela me
emociona muito..
No dia em
que o Léo morreu. D. Marina, me perguntou porque eu me aproximei do seu filho,
ela disse que sempre adorou nossa amizade, que me tinha como um filho, mas, que
essa duvida sempre permaneceu em sua cabeça. Disse que eu me aproximei ao
contrario das outras crianças que se afastavam dele por conta da sua diferença
e limitações. Falou que eu fiz o seu filho sorrir em dias dolorosos, perceber
os lados positivos da vida.. Que minha amizade transformou a vida do seu
garoto..
Eu... Por
um momento não soube o que responder.
A abracei
forte, lembrei da minha avó, e respondi ali no calor do abraço, que me
aproximei do Leonel por causa do que ele poderia me dar. E me deu!!
Possibilidades de conhecer alguém sublime, realmente fraterno, sem impureza.
Eu disse
que não poderia deixar de conviver com um amigo, um irmão, um pai, as vezes
filho, parceiro por algo que os olhos tem o poder de estragar. O meu
relacionamento com o Léo estava pautado na verdade cega.
Éramos
como éramos, por conta das nossas semelhanças.